Ao Sul de Lugar Nenhum
   
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Cheia de expectativas e você vinha caminhando daquele jeito único, meio que sem olhar para os lados, a música alta nos fones de ouvido. Totalmente imersa em algo que nunca ninguém entendeu muito bem o que era. Mas havia algo importante ali, algo que te fazia triste. Algo que te fazia construir duras palavras e arremessa-las meio a esmo. Palavras bonitas. Mas quase sempre você errava o alvo pelo simples fato de não haver um alvo. Você tava perdida em si mesma, você tava loucamente desesperada, girando infinitamente em falso. Um incômodo ardente. Nada que pudesse ser resolvido numa sala de terapia. Teria que ser no peito e você não tava disposta a tirar aqueles fones do ouvido. Você aceitava essa condição e de alguma forma tentava sorrir pra ela. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 03h21
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Os luminosos em outra língua. Eram símbolos da verdade. As pessoas que passavam entre cachorros e gatos, e vendedores ambulantes de todas as espécies. Nós estávamos numa dessas pequenas prisões, ou gaiolas, logo acima. Enfurnados. O que, afinal, tínhamos ido fazer ali. Você disse algo sobre recomeçar. Longe de tudo. Acho que levamos isso muito a sério. Você não para de suar nesse lugar abafado. Ventilador não existe aqui. Você não entende o que a tv diz, mas insiste em deixa-la ligada. Porque você simplesmente não some por essas ruas estreitas cheias de comida pelo chão. Você olhava uns cargueiros e sonhava como seria viajar ali. Resquício de alguma coisa mal resolvida que você deve ter lido em algum livro. A noite a gente sempre acabava olhando aquele monte de luzes. Aquela cidade que não nos pertencia. O cigarro que tinha outro gosto. E no fim a gente sempre acabava discutindo sobre aqueles verões, antigos e distantes, naquela praia deserta. Aquilo foi o mais próximo que chegamos de termos um lar. Agora a gente se abraça – sempre terminava assim – e tenta se acostumar ao silêncio. A gente não entende a língua daqui.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 08h45
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O ambiente já estava tenso, já deveria ter sido interditado por alguma criatura divina há muito tempo. Pelo menos ele tinha a total certeza de que aquela era a última vez que ele pisaria ali. Pelo menos na companhia daquelas pessoas. Elas não eram ruins apenas haviam perdido a capacidade de sacar qual a hora exata, o tal momento certo, de cair fora. De simplesmente perceber que não cabiam mais ali. Insistiam, na mesma proporção que as feridas se abriam ao invés de fechar. Era a última vez, última vez. Suportou as mesmas agressões fingindo uma tranquilidade que ainda não atingira. Quando era demais o elevador servia de refúgio. Ia de andar em andar, como quem procura, para além do porteiro fixado na câmera, a salvação perdida num dos corredores. Era a última vez. Felizmente tudo aquilo seria demolido. Não fisicamente, mas instintivamente. Aquele monstro ocupando o meio da sala seria varrido por algum super-herói ainda não inventado. Por alguma coisa criada e perdida na infância. Infância. Onde tudo se resolvia com alguns gritos insanos. Talvez seja isso. Gritar, agora, é inútil. Simplesmente não adianta mais. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 08h44
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Concreto derretido e as paredes em decomposição cravejadas de balas. As pessoas caminhando normalmente. Todo aquele cenário apocalíptico era tanto e apenas o cotidiano. Passava-se ali como se passaria por qualquer lugar. Era como se a gente estivesse acostumado a navegar em mares revoltos. Ondas gigantes. Não havia momento de conforto, era como um estado terminal do mais profundo cansaço. Nos acostumamos com as pancadas e com a dor. Nos acostumamos com coisas que não deveriam nos pertencer. Equivocados. Estávamos irremediavelmente perdidos de nós mesmos. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 08h42
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Você sentava ali quase para vencer a morte. Não era qualquer tipo de morte, era um pouco mais assustador. A janela ficava aberta e nunca vou me esquecer daquela brisa. Uma das poucas coisas vivas por ali. O resto tava meio que ressecando e você nem percebia. O sol era implacável conosco. Parecia que tudo era meio implacável conosco. Nunca fechamos a janela e nunca nos protegemos do sol. Éramos imbatíveis. Mas não conseguimos. Sucumbimos juntos com a normalidade. Afundamos como qualquer outro pedaço de lixo e nos tornamos aquilo que detestávamos. Não deu tempo nem de pôr a cabeça pra fora. Fomos massacrados. Paramos de respirar enquanto éramos engolidos pela mediocridade. E tudo, lá fora, continuava rigorosamente igual. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 08h41
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Tava um frio da porra e você insistindo que no frio era mais fácil resolver os problemas. Acho que você pensava que era só se esconder debaixo daquela coberta nojenta. Não tava fácil. Você era um pouco assustadora no jeito de cantar no chuveiro. Não parecia querer espantar seus males, parecia mais uma invocação. Do que, eu já prefiro não saber. Na cozinha conversava com os alimentos. Então vinha o frio e você tentava conversar comigo. Minha sanidade nesse momento se resumia a uma marca de sola de sapato na parede. Eu tentava modelar a tal conversa do frio na minha cabeça. Parecia que ele, o frio, só era mais propenso a momentos de reflexão, introspecção ou uma inevitável melancolia. Era isso, os dias frios são os dias inevitáveis. Quiçá, imprescindíveis. Quando cheguei nessa conclusão ela já tinha ligado o gás. Olhei pela cozinha, ela já não estava mais por ali.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 04h18
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As cartas que você me mandava eram meio nojentas. Na real elas se tornavam nojentas. Não mais que 20 minutos depois que as lia. Eram nojentas, de fato, hoje. Não havia cerveja que compensasse você trazer valores para a mesa da minha casa. Seus valores herdados dos campos lotados de cavalos manga largas (mal, não sei o plural dessa coisa). Eu mal sabia me comportar diante daquilo. Conseguia quase pensar na minha família. Cheia de problemas e capenga, mas meio que real. Real. Nas horas mais coloquiais seu pai era no máximo um regente de orquestra na sala mais luxuosa de Viena. Ou coisa que o valha. Eu tava falando de cartas. Isso precisava de uma carta aberta ao público. Talvez, como dizia Ginsberg, sobre as cartas, um dia a América conheceria a Verdade (maiúscula). Mas seu endereço eu enfiei pela garganta. Na real foi quase simples.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 04h17
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Claro, como um fato, meter os meter os pés pelas mãos viajando na leveza de um dia qualquer e esperando que essa mesma leveza carregasse uma espécie de reciprocidade que pairasse no ar, que colocasse no colo um grande fardo pesado sem sentir qualquer diferença. Eu piso no mato cerrado, e a cada arrastar sou assombrado com a idéia do que não foi feito. Cortar o mato na raiz. Nada que a chuva incessante não traga de volta. Sobre recompensas: não houve mortos e não vejo como recompensa um simples sorriso torto. A beira da estrada está recheada de sorrisos mal executados. Eu resguardo, bem aqui dentro, esse senso de humor que há léguas se distancia da ingenuidade ofegante dos apressados. Ele vem junto com um amor feito cancro no peito, que sorri, por um excesso de sinceridade. Tem muito mato aqui e agente deveria se encontrar num lugar limpo, próximo à esquina dos intocáveis.



Escrito por aosuldelugarnenhum às 12h37
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Aí você ficava lendo tudo, e discutia e quando eu via o assunto já era outro. Aí você pulava de bar em bar, na lábia, me levando com você. Eu nem sabia como ia e quando via, o sol raiava, dava as caras mesmo, e o pastel da feira era o complemento e eu nem conseguia escolher o sabor. Pausa e você flutuava fazendo escolhas fortuitas. Conservadoras ou desconhecidas, isso não parecia passar pelo seu filtro de desejos. Quando via você já dormia um sono pesado enquanto eu ainda pensava onde estava e não era só questão de um passo atrás, era como uma maratona. Você passou em cima de mim como quarenta mil corredores numa são silvestre qualquer. Eu sequer completei a prova e só me lembro de estar estendido no asfalto vendo você sumir na multidão. Na verdade quando eu tentava levantar era a multidão que sumia: o horizonte e você, suas curvas e voltas, formavam uma coisa só, e eu inerte me confundindo no asfalto quente, pensando em virgulas e pausas, enquanto você só ia. E ia. Então, de repente, quase não foi, e virou meio corpo e me estendeu o dedo médio. Cresceu. E foi. E eu pensei que, se tivesse que acreditar em alguém, acreditaria em alguém que bebe sozinho.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 12h35
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Eu só tava passando por ali, como passo várias vezes por dia, trocentas vezes por mês. Tinha tudo para ser como sempre foi. Um mar de cervejas e uma caminhada dançante para a cama. Algo para romper com a tranquilidade da repetição, no meio do caminho, me jogou naquele vácuo de olhares tortos. De tão tortos, cegos. De tão cegos, falastrões. O sagrado silêncio da caminhada de volta se tornou um farfalhar de opiniões de anjos preguiçosos. Desses que não descem de suas altas nuvens. De alguns eu consegui arrancar as asas e de outros eu tomei doloridas coronhadas. Alguns estavam fortemente armados. Para esses eu apenas pedi o direito ao último trago enquanto era levado arrastado para aquele lugar onde tudo é tediosamente confortável. Como um garotinho assustado, eu gritei apavorado. Enquanto meteu o berro na minha cabeça, o anjo chefe ameaçou me colocar para dormir com as certezas. Eu pedi, silenciosamente, que ele atirasse sem dó. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 08h42
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E não adiantava, tu olhava pra mim já com olhos desiludidos. Não eram bem olhos desiludidos. Eram olhos que só eu sabia decifrar. Que pena. Muitos dariam a vida para decifrar aqueles olhos e para mim era tão corriqueiro. Tão corriqueiro que preferia nunca tê-los visto. Exagero. Talvez eu só preferisse cortá-los. Como um diretor de cinema. E eles não veriam os passeios de bicicleta por lugares inóspitos. As subidas tenebrosas que tinham uma simples cerveja no final. Me sentindo um fora da lei. As quedas. O meio fio virou reta e bati com a cara nas ervas da cachaça. Um diretor. Cortaria determinadas cenas e montaria um belo final. Com curvas ao pôr do sol. Curvas não tão curvas. Mas curvas bêbadas. Onde eu não caí mas fotografei belos momentos. Só fiz um regresso meio que orgulhoso. Desce daí, ou entra pra casa, ou o portão tá aberto. Caralho, era bonito brigar contra a luz.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 07h46
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Ela disse algo sobre pedir dinheiro emprestado, que precisava comer e precisava do mínimo de álcool no sangue para manter a sanidade. Ela explicou os hematomas, quase resignada, justificando que todos ali tinham muito. Mais que o suficiente. Ela tentou não chorar quando disse escutar, todas as noites, seus dentes apodrecendo e se descolando da gengiva. Ela passava pela mesma ruas há meses e nunca imaginou que algo assim aconteceria. Ela me perguntava como eu ainda estava inteiro. Ela não parava de falar, ela não falava com ninguém. Muito menos comigo. Ela apenas olhava. Mas não para mim, e sim através de mim. Ela enxergava coisas que as outras pessoas não viam. Por isso tiravam ela de louca. Por isso ela foi espancada e tinha um fio de sangue que lhe escorria da nuca aos tornozelos. Ela continuava andando e todo mundo continuava estático. De alguma forma era o mundo que ficava estático enquanto ela passava. Ele parava, abobado, como para entender o que tinha dado errado. Enquanto ela dialogava. Ela não parava. Acho que era como uma casa de espelhos imaginária. Instalada internamente. Onde tudo refletia tudo. E ninguém, em sã consciência, aguenta olhar tudo. Tudo era muita violência. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 18h14
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Ele disse pra ela que apenas não estragasse aquele dia. Que parasse de gritar feito louca, que parasse de esmurrar os carros parados. Que andasse mais devagar. Que guardasse as armas. Aquele teria sido um grande dia. Era pra ter sido um dia de sol, um dia de festa, aquelas mesas de almoço ao ar livre que aparecem no cinema americano. Mas ela resolveu que a ilusão não teria espaço ali. Fez com que a chuva caísse pesada e alagasse a todos com uma amargura extrema. Riu categoricamente quando ele, reiteradamente, pedia para que ela não estragasse aquele dia. Não reagia aos xingamentos de cadela. Seu ódio não tinha espaço para comportamentos juvenis. Para ela não haveria festa aquele dia. Nem que baco fizesse uma aparição e ajoelhasse diante dela com uma garrafa de vinho francês. Nem que ele houvesse contado com outras palavras – talvez em forma de poesia – o que havia acontecido. Era pra ter sido um lindo dia, mas a ilusão se afogou na chuva intensa. Ele, agora, precisaria atravessar o inferno.  



Escrito por aosuldelugarnenhum às 18h14
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Aquela cama tem algo sagrado, são três estágios e todos são representativos. O lençol é maior do que o colchão, a vida é maior do que o lençol, o cheiro é tão pequeno perto da marca de sangue. Sim, era sua menstruação, marcada a fogo ali, como se nada pudesse ser maior, como se nada pudesse superar aquela marca. Eu já não olho mais, nem me preocupo, sequer reparo nela. Por anos não lavei aquilo, com medo de que realmente sumisse. Um dia você olhou e disse que aquilo era nojento. Você não fazia ideia. Você não fazia ideia de que, pelo contrário, algum tipo de vida brotava dali. Você pulou naquele rio gelado, de fotos não imaginadas ou simplesmente ignoradas. Sobreveio da imersão com cara de susto. Você ali era você, só você. E como isso bastava. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 14h56
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E ouvi da criança, sentada na beirada do campus, ilusório, que um barraco eram babaquices regados em músicas saídas de velhos gradientes. E não era pra ser assim. Mas o fogo queima. Finalmente. Queima jogando um cheiro forte. Na porta da sua casa. De peito aberto. Não basta se armar e achar que a madrugada vai curar um role desse. Não dá pra se afogar naquele cheiro. Seria um outro cheiro. Não fazia sentido. Mesmo que eu colocasse um santo espremendo e fumando em cima do pecador. A gente monta o presépio como quiser. Eu gosto de montar segundo a realidade. Sempre transformada. Eu pedi que não. Segundo seu narrador. Aprendi que não. Ninguém esperava. As coisas se dão nas dores da sala. Os fantasmas não são bonitos, nem coloridos, muito menos carregam presentes. Eles são invisíveis. Eles já eram, eram ali debaixo, comendo o sagrado. O sagrado era simplesmente aquilo que não aconteceria conosco. Todo resto podia acontecer. O sagrado era algo quase medíocre. 



Escrito por aosuldelugarnenhum às 15h00
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