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Quando eu senti o cheiro de festa de criança minha noite caiu mais ainda, minhas pernas bambearam, era um cheiro de óleo fritando salgadinhos, misturado com muito barulho. Me vieram os salões, quintais e garagens. Sobretudo os pratos de salgadinhos e os refrigerantes. Doces. Nessa noite os personagens se cruzaram e não era o que eu esperava da história. Fraquejo, pensei. E me pus a caminhar, entre confuso, angustiado e levemente leve. Eles não poderiam se cruzar, afinal sempre achei que um caçador não é um assassino. Mas veio esse cara grande, boxeador na juventude, e cruzou a minha noite. O texto, não a caminhada. Era leve e rápido. E também gostava de andar na madrugada. Às vezes eu criava personagens para serem meus companheiros de bar. Trazia-os para perto, afastava, parava no meio do caminho. Apagava-os. Alguns voltavam para me assombrar. E já me encontrei com vários deles em becos pouco freqüentados. Com uma eu já até transei. Tentei matá-la varias vezes, mas talvez ela me conhecesse mais do que eu mesmo. Não queria ir, teimava, me cuspia na cara os defeitos que eu escondia de todo mundo. Era uma boa mulher, talvez tenha aparecido em mais de uma centena de páginas, na maior parte nua. E agora tudo foi tomando proporções impensáveis. Eles se sentam comigo nos bares, vão às minhas festas de criança, sobem na minha mesa e comem as minhas refeições. Eu só gostaria que eles entendessem que precisam desaparecer. Eu gosto de andar sozinho, de sentir a chuva molhando meu tênis e ensopando as meias. Eu gosto de fazer um tipo de caminho e disso não abro mão e cada um me atormenta em prol da sua avenida preferida. Volto, a casa abafada, entorno um conhaque (sabor, pela segunda vez penso no sabor, festa de criança) para tentar voltar ao trabalho, sinto calafrios. Tenho medo de enfrentá-los, ou tenho mais medo de eles não aparecerem. Não conseguir. Não. Conseguir. Ofusco os olhos na tela em branco, ponho o conhaque de baixo do braço e volto a caminhar. Aqui não tem ninguém nas ruas depois da meia noite, ainda assim sinto uma espécie de claustrofobia. Caminho mais rápido, caminho até amanhecer. Então eu volto. E durmo. E assim são todos os dias. Às vezes é de mais. Às vezes é de menos.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 21h55
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NA HUMILDADE (OU: O AUTOR DA ÚNICA FRASE ENTRE ASPAS DESSE TEXTO). Eu sempre atendi o cara. Minha publicidade não estava nos deteriorados telefones públicos, nem fazia anal giratório ou coisas do tipo. Classe. Eu estava lá, na grande mídia, malandramente escondida entre anúncios de novos condomínios-fetiche da classe média. Cada vez mais altos, fechados e auto-suficientes. Quase uma espécie de vídeo-game. Eu não sou uma profissional do sexo, eu prefiro puta. Me parece mais colado à realidade. E aí você me pergunta, como uma puta sabe de tudo isso. Puta sabe de muita coisa e não posso negar que aprendi muito com ele, sempre tive facilidade, minha vida perpassou minhas próprias escolhas. Ele – que chamarei simplesmente de Ele – nunca, mas nunca mesmo, se permitiu qualquer afeição em relação à minha pessoa, pelo contrário, era muito rude; por vezes tive medo de que me batesse com uma daquelas bengalas espalhadas pela casa onde morava, perto da estação Domingos de Morais. Ele teve um pequeno problema na perna depois de tomar uma sova de taco de sinuca. Agente se viu por um ano inteiro, seguidamente. Transávamos, bebíamos e ele falava sobre literatura e filosofia. Às vezes psicologia, e aqui demonstrava seus próprios demônios. Se alterava, berrava, dizia que nada daquela teoria dava conta de explicar o mundo hoje, que os conceitos eram outros, os preconceitos renovados, a melancolia gerada pela falta de perspectiva. Bebia muito. Nossas transas eram bem automatizadas, insossas, tinha a impressão que talvez ele fizesse aquilo apenas porque achava que tinha que fazer, gostava mesmo era de falar quase vomitando. Falava principalmente dos russos. Soturnos, endemoniados – dizia. Em noites quentes íamos à rua, freqüentando principalmente os butecos de pano verde – sinuca. Bilhar – dizia ele – é assim que a malandragem gosta de chamar. Mas isso era só nas noites bem quentes, ele comentava não agüentar mais sair de casa, conversar, estar perto de outras pessoas, eram outros tempos. Se incomodava com a sinuca ser hoje quase um jogo limpo, sem manejos escusos. Nunca cheguei a ver um sorriso dele. Com ele eu somei umas 300 transas, um bom dinheiro, algum conhecimento. Algum desgosto pelo ser humano. Eu me apaixonei rapidamente, queria que ele me convidasse para ser dele. Sim. Ser dele. Mas eu também não demonstrava, sentava orgulhosa nos meus trejeitos de puta, fingia fingir orgasmos (os quais eu tinha fulminantes), escutava com desdém. Creio, hoje, que era um mútuo resguardo. Me deu muitos presentes, roupas, jóias, livros. Repentinamente deixou de ligar. Meses, um ano. Não tive, do alto do meu salto quinze de puta, humildade para correr atrás dele. Um dia, conferindo no jornal se eles haviam aumentado meu anúncio, dei de cara com seu nome na lista de óbitos, era sujeito conhecido. Suicídio, descobri depois. Embaixo do seu nome constava uma pequena nota. Haviam achado perto do seu corpo um bilhete onde ele pedia que aquelas palavras constassem do seu epitáfio. Estava escrito assim: “O que dói não é dar dinheiro às putas. É elas nos chamarem de meu bem”. Eu chamei ele de meu bem, apenas uma, uma única vez.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 22h52
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As vezes parece que agente não vai conseguir. Então os dias se arrastam, quentes como hoje, cheio de notícias ruins e sentimentos perversos. Sem caminhos certos seguimos o ponto que a vista consegue alcançar, trôpegos, embaçados como copos sujos, sem entender as escolhas outras, meio intolerantes, quiçá ressentidos de não compreender. Bafo quente na nuca e não há ninguém por aqui. Vontades inconclusas. Noites de sublime perigo. É bom varrer logo essa sujeira, tirar o pó e quem sabe conseguir respirar. Lugar comum, as avenidas vão vazias e quando surge um carro ele é lento e normalmente tem algo pendurado no teto. Noites calmas na praça e as peças de dominó suadas. Mas é em outra avenida, que daqui foi pra longe, lugar das coisas acontecerem. Mas elas teimam em não acontecer. Proposital, penso que não. Tem folia na rua dos mutilados e desejosos do imprevisível. O tal do perigo. Me tranco onde não podem me alcançar, essa luz forte que vem sem perguntar. Não passará. Eu grito, não passará. Um cigarro no outro, um cigarro no outro. Não há mais nada a ser feito por aqui, nada mais que justifique esse adiamento e esses telefonemas constantes. Não mexa no telefone. Sim, me sinto como no Pântano de Lucrécia Martel, atmosfera densa, mais pesada que o ar. Esses grandes sacos pretos, entulhados - caralho - de porcarias. Ponha-os nas ruas, que peguem o que quiserem. Como na música, abram as portas das suas casas. Não deixe que isso aconteça novamente e, agora, sai daqui. Não deixe novamente escapar palavras sem volta, frases que te façam mostrar uma fisionomia patética posteriormente. Não faça mais isso. Leia, leia e releia no velho colchão e torça para ter uma mão outra por perto. Torça para ter sua mão nas teclas, para que o tempo pegue leve na velocidade, para que tenha água no filtro e ela seja gelada, para que a ansiedade não lhe cause uma úlcera precoce. Depois corra e olhe para trás. Dói essa tal saudade não?, esse tal desejo não experimentado, essa raiva aveludada. Dói as coisas não feitas. As feitas pela metade. As mal feitas. Você não sabe, sim, mas eu tento.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 14h24
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TA OLHANDO MINHA 'MINA'? É o medo de estar enlouquecendo. O cara me pergunta “que foi, ta olhando minha mina?” Porra se ele soubesse que eu só queria pagar a conta e chegar na minha cama. Eu olho os movimentos, sim, e fico pensando em como por aquilo no papel. As escadas eram altas, não, eu não tava olhando a “mina” do cara. Triste limiar entre o riso e o choro. Encosto minha bunda no carro estacionado, meus olhos marejam com fotos nem tão antigas, com amigos que estão ali mas não adianta cair na ilusão. Algumas coisas ficaram pra trás. Eu sorrio com esforço e parece que dói mais, sou expulso do banheiro e parece que isso diverte de alguma forma. Tem gente que continua achando que o mundo é bonito por si mesmo. Basta agente se calar e ele se mostra lindo, ou pior, perdem a noção da coletividade e um mínimo ato se transforma em revolução. Pena que não seja assim. Mas eu vejo as pessoas sorrirem e aquilo de certa forma me deixa confortável, afinal, eu sei que várias delas na manhã seguinte estarão no mesmo barco. E elas não deixarão ele afundar, e vão estar juntas de novo na próxima oportunidade. Uma forma de camaradagem explícita naqueles rebolados sensuais. Eu fico meio escondido, e olho por aqui, e por ali, e não sei pra onde vou amanhã, mas eu só queria ter todos vocês por perto.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 01h45
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NÃO CUBRA MINHA BOCA E ME DEIXA RONCAR
Late cachorro late, hoje você pode latir e fica nesse silêncio mortal, cadê todo mundo? Vocês ainda estão ai? Nem as luzes estão acesas, acho que só a da tv do quarto, late alguma coisa por favor. Já pisei na sua merda, era só um vento na cara, mas tinha sua merda no caminho. Tinha uma merda no meio do caminho, eu pisei bem no meio. Deu até aquela derrapadinha. Tudo se fechou e tem 3 malucos na esquina. Pensei em abordá-los, não faria sentido. Já não sinto fome mesmo. Enquanto consertavam os estragos você latia e naquela hora não precisava. 3 baques secos. Vento forte range a porta. Cadê o, o, o? Esse mesmo. Até ele escapa e já não deve nada pra ninguém. Os 3 cabras estão aqui dentro e não parecem felizes. Falam confusamente e eu não compreendo, vou ficando cada vez mais longe, longe, até eles chegarem esfumaçados e mudos aos meus tristes olhos. Não era bem isso que eu esperava, e eu crio fantasias, e acredito que certas forças da minha cabeça podem reestabelecer tudo num único toque de pálpebras. Toque de pálpebras, vá te cata. Mais alguns que se vão, e eu não combinei que apagaria a luz. Ei volta aqui, quem será o último? É, eu sei. A vida né. Eu acredito nela. Sim. Às vezes. Ouviu o cachorro? Nada. É, os malucos já foram embora levaram só alguns dos meus miojos, e ele, ele, ele chegou. E os cachorros voltaram a latir, timidamente. Eu espero, espero ansioso, como nunca. Falta. Espaço. Gigantesco. Vazio. Vamos ocupar. Ah, omissão, que pena, não mais merecerá, como eu, então, então...
Escrito por aosuldelugarnenhum às 20h42
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Eu posso ver que você e eu vivemos nossa vida na chuva. http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9nj29EqzGGU Me restam poucas coisas, e a razão entre o ir e ficar é tão tênue que me confunde o sono. O que vale a pena quando o que nos resta é a dúvida. Resta a fuga e a dor, a dor da fuga, a dor do corpo, resta as aventuras passadas e que agora já não soam tão bonitas. Pois deveriam soar, mas veja bem, humanos, somos demasiados humanos para não chafurdar na raiva, no descontrole, na histeria, na falta de entendimento. Pânico, o que você também deve ter sentido nesses dias solitários. Acho que talvez seja uma vingança da natureza. E como bom merecedor eu abaixo a cabeça e deixo que as lágrimas molhem as páginas dos livros, esse monte de livros lidos e relidos em conjunto. Ah, quanta esperança da porta pra fora. Dizem que há um mundo cheio de gente, logo ali, ao atravessar o portão. Fácil. Eu às vezes não quero olhar esse mundo, ele me parece hostil. Sinto medo como nunca senti e fraquejo. Agora eu entendo a sensibilidade felina, meu único refúgio. Talvez eu não fuja e coloque os velhos filmes na tv e me perca nas imagens em movimento. Nas mesmas imagens. Aplacar a solidão não deve ser tão simples, mesmo porque essa solidão hoje me arranca todos os dentes da boca. Eu quero meus dentes de volta senão tomarei toda a caixa de comprimidos que guardo num local seguro. Hoje eu tombo e não consigo levantar. Hoje eu grudo meus olhos nos seus olhinhos fechados de um sono finalmente tranquilo, e tento não ser egoísta, tento não pedir além do que você pode me dar. No fim, somos iguais e dividimos o mesmo sofá, as mesmas angústias e os mesmos abandonos. Viu amigo, acho que hoje já posso te chamar assim: amigo. Quero te contar que sempre alguém olhará por nós com olhos brilhantes de ternura, e que nunca nos abandonará. Tamo junto nessa. Você tenta não dormir pra me acompanhar nessa jornada de palavras tolas, nesse ofício já tão gasto e mal feito. Isso já era um sintoma de desalinho. Essas palavras não são para ti, há muito que já não eram. Não tome para si o que não lhe pertence. O desespero tem várias causas e muitas delas demorarão a vir à tona, tome a sua liberdade e nade nela como numa grande piscina num dia de verão. Eu sempre preferi o inverno e esse vai demorar a passar.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 04h00
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Quando eu estiver definitivamente nu, buscarei você no fundo do bar e não ligarei para aqueles que buscam o que você retira do sutiã e recebe notas velhas em troca. Afinal eu considero que você ainda consegue fornecer uma fuga para alguém, coisa que eu não mais conseguirei. Você possibilita a loucura e a histeria. Você possibilita as ligações descontroladas na madrugada mais alta. Você recebe os que estão sem caminho e lhes oferece uma fuga ao inferno, passando rapidamente pelo paraíso, um paraíso que simplesmente esfumaça numa baforada de cigarro barato. Ele vai te dar um câncer logo menos, e sim, não estamos mais nem aí. Tudo vai ficar para trás quando nos encontrarmos no alto da montanha, longe de tudo, e para sempre comendo terra. Uma terra sagrada e mergulharemos nos rios mais límpidos, lavando o que não é visível a olho nu. Tudo será uma velha lembrança pela qual nutriremos uma espécie de tranquila indiferença, teremos vontades vãs, que logo expulsaremos. Estaremos juntos com os acampados, da nossa forma, descobrindo novos meios de dar conta das palavras. Pois não estamos e nem estaremos aqui de fato e sim colhendo palavras naquela mesma terra, combinando-as de forma revolucionária. Enviaremos mensagens subversivas e cifradas. Estaremos juntos aos que sangram, limparemos as feridas dos que chegarem vencidos por forças que porventura ainda não tivermos suprimido. Você pergunta como ou porquê, eu te respondo criando personagens que nada mais são que a realidade. E a realidade meu bem, anda com pernas trêmulas, a boca seca, e a mente dominada por delírios. E ela não dorme.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 14h57
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SOFÁ ESPLENDOR. PERDÓN 
O sofá ta todo rasgado, ah quantas historias contaria esse sofá que hoje cospe bolas de espuma. Sou acordado com garras afiadas roçando minha barba. Ah, esse sofá que antes ocupava outro espaço, ou melhor, veio para ocupar um novo espaço. Um espaço aqui dentro. São todos bem recebidos dentro desse mundo, portão emperrado à dentro. Mas é um mundo não exatamente agradável, e isso já era para ter sido entendido. Do lado de fora um mundo, do lado de dentro o sofá que vomita bolotas brancas. Acho que ele não está muito bem. Garras afiadas, cravam e não soltam, e o soltar cairia na loucura do mais fácil. Grude bem, ah sofá que belas cochiladas. Antes um solitário, hoje és aloprado. Pontos que eu não vejo, durmo o sono das montanhas nevadas japonesas, e eles são tão raros. Nunca sonhei com você, curioso. Ah, Monte Fuji, e não pise nas teclas, que tu escreves coisas indizíveis, dialeto do qual foi separado. To devagar como você não imagina. E vejo os trailers, veja bem, trailers que são de trabalho. E as estruturas enormes postas acimabaixo, acimabaixo. Sonhos que continuam no berço da criança. Ah esse sofá rasgado e o monte fugi enorme na minha cabeça sonolenta. Me dá um qualquer coisa ai, eu to sozinho e não bato muito bem. Queria pedir uma maria-mole pra moça, mas ela, como sempre, foge desaparecendo por longos períodos, deve ter sido o sofá. Só eu vi o monte Fuji. Não, não me impeça de vomitar aqui, não arranhe meus dedos que batem desesperadamente essas teclas gastas. Gostaria de incomodar os vizinhos com o barulho da máquina de escrever, acordá-los, e nem isso mais é possível. Te arremesso pro chão inutilmente, mas em compensação tu dormirás um sono de asinhas brancas cheias de plumas. Eu ficarei com as dúvidas da vigília, e não adianta, aqui pro lado de dentro é território perigoso. Ah o monte Fuji visto do meu sofá, cobertores e desertores, arrebentai os portões, o mundo na rua para o mundo que é da rua. Essa tal de alma encantadora das ruas, né João do Rio, homem da escuridão observadora. Vou levar meu sofá pra rua e quem sabe fazer uma fogueira. Criar uma zona livre de calor. Dá pra acreditar nisso, ele vai queimar. Talvez a fumaça das suas bolhas brancas externalizadas se junte ao circo com palhaços programados para aliciar nossas crianças, né Criolo? Fogo no sofá. Do alto do monte Fuji. Ah esplendor tire-me daqui, por pouco tempo, posso prever alguma magnitude e voltar, de fato volto, porque antes de ir agente cria inevitavelmente a possibilidade da volta. Não, essas fotos não são para nada. No, somiente una recordación. Perdón, crucifixo no pescoço, desconfiança de cima. És o teu mundo, que creio duro. Eu paraliso o momento, e você parece que percebe o instante. Pisca os olhos enquanto encho os cinzeiros. Você sabe que um dia me afundarei nas bolhas de veludo brancas, entraremos ali. Veja bem, meu esplendor é o tal sofá rasgado. Carregado de restos de comida e uma barata que há uma semana dorme na almofada. Perdon. Tomo meu rumo e espanco meu computador, não quero saber de politicamente correto, ou quem sabe do incorreto? Para onde vais com essa cara de susto. Agente se encontra lá no monte. Enche meu copo que esse ambiente eu não freqüento muito. Mais uma, pra acostumar. A vigília consciente que não me aparece com freqüência. De resto acabo sempre encontrando o caminho do portão emperrado, mesmo que esse apenas aparente ser a entrada correta. Deslizo a barra até o fim e todos foram dormir. Tem alguém ronronando por perto, tem alguém, nesse momento, que está em paz.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 16h20
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Um parque de diversões diabolicamente iluminado (ou sobre velhos medos) Se me perguntassem quando isso começou a acontecer, diria honestamente desconhecer a resposta. Era como uma tempestade de vento frio, muito frio, judiando a minha nudez. Que, diga-se, não era voluntária. Tudo acontecia pelo lado de dentro, longe da possibilidade de controle, longe das vistas dos outros que não percebiam nenhum tipo de mudança. Talvez alguns trejeitos novos, incomuns, passassem apenas por um espasmo, uma nóia qualquer. Quando eu andava sentia o empurrão sempre pelas costas, e só eu notava e o grito não saía. Eu passeava por lugares perigosos e a face que todos viam era de uma criança num parque de diversão diabolicamente iluminado. Vinham algumas perguntas como ‘você ta bem?’, eu sempre digo sim, não sei onde estou e assim não consigo dar forma concreta às palavras que porventura saíssem da minha boca naquele momento. Ela era das que sempre perguntavam e ficava por perto. Talvez sua sensibilidade argutamente aguçada soubesse de algo. Ah, o grito que ficava preso. As palavras perdidas, ou simplesmente espalhadas e desconexas, jaziam pelo sofá. As lágrimas escorriam exatamente neste momento. Os livros, que sempre indicam uma saída, se derretiam como num quadro de Dalí. A cerveja perdia seu conteúdo quase poético. Quando finalmente conseguia sair daquele passeio forçado pelo medo, voltava a enxergar a fisionomia das pessoas como elas, de fato, eram. Nessa altura o dia normalmente já ia alto. Daí eu só tentava relaxar, voltava pros meus autores favoritos, um som quase imperceptível, um carinho talvez. Eu já não estava nu, o vento não mais doía, e a velha harmonia voltava a germinar idéias de tranqüilidade. De natureza, talvez. Vamos embora? – disse ela vagarosa, as pernas a mostra. Era só dizer pra onde e aquilo tudo sumiria.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 02h05
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CONTAM POR AÍ QUE UM TRAILER DESGOVERNADO MERGULHOU NO PRECIPÍCIO
Eu dirigia meu trailer em alta velocidade por uma estreita estrada, os olhos pesados. Caminhões endoidecidos de muita anfetamina zuniam quase levando meu retrovisor. Longas planícies entremeadas de curvas perigosas, por vezes vi gigantes na minha frente, com seus grandes olhos apontados na minha direção, joguei várias vezes para o acostamento e sentia o carro quase se dissolvendo. A garota no banco de trás não acordava nunca, o justo sono depois de 3 noites viradas, sonhos com pedágios vermelhos, verdes e abandonados. Já não sabia se eram meus sonhos ou os dela que enchiam de ternura fictícia aquele quase inferno. Acusado de mera abstração, esse estado quase sempre presente, tem sua luz própria. E também consegue emergir na realidade a quem tiver olhos atentos e estiver preparado para uma curva inesperada em alta velocidade. A garota no banco de trás, e os caminhões kamikases me fizeram não mais pensar no acostamento, era só seguir em frente e aqueles monstros de olhos ofuscantes ou teriam toda a força que eu imaginava, ou não seriam nada. Um nada varrido tristemente pelo meu trailer, que àquela altura, já sangrava.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 14h59
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Existem momentos que os lados estão esvaziados, acostuma-se, vive-se, e cada um busca suas armas enfiados que estão numa jornada letal. Alguns mostram armas covardes, por isso momentâneas, não perduram no seu comodismo, logo passageiro. Os papéis se invertem e a covardia se vê acuada por uma necessidade frenética de ação. É tudo uma questão do velho tempo e normalmente a tal ação acompanha-se de atos irracionais, de quem não se acostumou com a feiúra do espelho, de quem não ta escaldado o suficiente. Eu sempre espero que o fundo do poço ainda esteja longe. Enquanto se aproxima vou tentando me afastar, devagar, uma desesperada lentidão. Porque Joca, talvez seja o contrário, do fundo do poço não se vê a lua e deve ser bem triste. Eu não torço por inversão de papéis, eu torço por uma percepção a frente do seu tempo, a velha história de não precisar sentar na merda pra sentir seu cheiro. Mais do que o necessário, digo. Agora eu não quero porres homéricos nem brigas com tacos de sinuca e mesas tombadas, meu velho fusca grita alto nas curvas. Eu nunca encolherei meu corpo frente a uma agressão sem sentido de ser.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 20h06
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CAMINHÕES, CACHORROS E O ETERNO MOVIMENTO

Aqui por vezes acordo e não reconheço as paredes, o forro de madeira com buracos misteriosos, não reconheço, outras vezes, nem a falta das pessoas que andavam por aqui. Na beira da estrada o vento erguido pelos caminhões e seus heróicos tripulantes forja uma lógica diferente, uma espécie de camaradagem desconfiada, onde se pode ganhar ou perder feio. Na boléia acabamos por ser todos iguais, dividindo histórias nem sempre plausíveis, nem sempre faladas, gestos, comunicação rudimentar que funciona, musicalidades doidas, canos fumegantes rente à face. Alcançamos o vale e amanhecemos juntos com a vila: gelados, pálidos e longe da lei. A temporalidade diferente e o silêncio não são suficientes para esquecer a permanência do desejo. Luta sangrenta, constante, amaciadas com longas caminhadas e uma bebida no fim da tarde. Agora, apenas o rio descendo, incessante e teimoso no seu caminho, como alguém que não muda de posição facilmente. Começo a reconhecer algumas coisas, a entrar na órbita de um planeta vazio, mas com subterrâneos tresloucados. É uma escolha, daquelas que só um cachorro com as costelas aparecendo pode fazer. O que se deve seguir e para onde ir. Alguém que não tem nada a perder. De um horizonte montanhoso para uma imensa planície onde o sol parece morrer no chão, ao fim da avenida. Movimento, movimento. Dôo minhas pernas para uma caminhada sem fim definido, vejo tons diferentes e cruzo outros trilhos. Nem sempre você está neles. Acima da velocidade permitida temos poucas opções, mas por hora isso basta. 
Escrito por aosuldelugarnenhum às 17h26
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Tomava chá com as cobertas afofadas entre as pernas, dores variadas, as articulações prejudicadas e a ausência de todos. Que um dia foram presentes, embrulhados em papel vagabundo, de pão, mas com a essência mais aguda que se possa imaginar. Os biscoitos ficavam ao alcance das suas mãos, os biscoitos eram agora uma coisa desprezível. Fora do contexto. Se foram, junto com todo resto. Ficaram suas migalhas. As migalhas, que sempre deixam um rastro, é uma espécie de lembrança que não vai embora. Filmes tolos, chorava fácil como uma criança que perdeu a rota de casa e um dia descobriu não ser mais criança. O velho tempo, foi esse senhor que trouxe as cobertas, levou os biscoitos e deixou as migalhas. Porque insistem nas migalhas. Refutem-nas. Leve-as daqui com a mesma implacabilidade das coisas que chegam sem explicação. Essas imagens impediram o efeito do remédio e sem ele as alucinações, variações de cores dentro de um copo de vinho, mergulhado, insone, inebriado. - Esse lugar parece um nevoeiro. - É a fumaça. O Fogo. - Não me venha com divagações. - E com elas, as migalhas. - Vejo que por hoje já era. - Sim. Por hoje, amanhã e depois. As manchas rochas lembravam as varizes de uma perna há muito tempo vista. Já morta. Sofrimento escancarado em demonstrações mínimas. Ela nunca chegava a tempo, sempre alcançava as coisas pelo rabo, e viajava, e perguntava das garrafas, do amanhã. O amanhã que era o grande vilão mas que só ameaçava. Ao mesmo tempo tão perto e tão distante. O amanhã do amanhã. - O amanhã é um sonho apenas. - Dorme. Não sinto sono há meses, pelo mesmo motivo que ouço vozes distantes. Elas se contradizem, e isso basta. Nem a loucura consegue se manter sã em tempo integral e isso é alentador. Vejo a magia chegar por entre o cobertor. E ela me sobe pelas pernas e me trás lembranças pueris. Não há lembrança que limpe todo o sangue aqui presente, foram várias pancadas, os limites são atravessados por vezes inconscientemente, não queremos limites, mas não sabemos onde esconder a culpa. Perdido entre diversos narradores, mas o sorriso está gravado como imagem fixa. Lembro de ter visto um riso no seu olhar antes de gozarmos juntos com o tempo. Parado.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 15h12
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SOFÁ URUGUAI

Ele subiu aquelas escadas pensando nos caminhos que tinha tomado até chegar ali, um lugar deteriorado não apenas pelo tempo, mas por todas suas histórias de pessoas que ali viveram como engaioladas, penduradas a centímetros dos fios elétricos, esperando o dia de atravessar a rua e tomar um daqueles ônibus com destino incerto. No dia que chegou por ali cruzou com uma prostituta que vivia em um daqueles quartinhos sem banheiro, melhor que o meu sofá, pensou por um instante. Tentou algum tipo de aproximação, mas sem dinheiro parecia ser impossível qualquer conversa que fosse. Tá interessado? ela perguntou. Não, não estava. Quer dizer, apenas uma conversa estaria de bom tamanho. Sentia que fazia décadas que não conversava com alguém. Tirando a garota que lhe dera carona, para quem ele até tentou telefonar. O orelhão era mero enfeite na parede acima do sofá. Afinal, também, aquele pedaço de papel com o telefone dela deveria ter sido mera formalidade. Dizia que estava indo para muito longe quando o deixou naquela esquina, Uruguai talvez. Ele nunca acreditava nesses pequenos pedaços de papéis cheios de possibilidades impossíveis. Ele gostaria de revê-la, tomar uma cerveja quem sabe. A prostituta passou novamente por ele, os sulcos mal tratados no seu rosto de garota precoce. Lembrou de vadiagens antigas quando ainda dispensava grande importância para isso. Tentou ligar novamente. O sexo não havia sido tão ruim, apesar do lugar. Caixa postal, talvez a história do Uruguai não fosse mentira. Se encolheu no velho sofá, as mãos atrás da cabeça e a prostituta que tomava sua cerveja antes de descer para a noite. Tocava músicas na sua cabeça: um trompete. Construía histórias: de amor. Viu quando ela descia as escadas e aos poucos saia do seu campo de visão. Talvez devesse ir atrás, oferecer alguma coisa em troca de algum tipo de consolo. Um afago no lixo. De alguma forma agora, a prostituta se confundia com a garota que ia pro Uruguai. Resolveu não descer as escadas, lá embaixo não era seguro, ouvira os tiros da noite anterior. Mas o que era seguro nesse estágio? Não havia fugido justamente da segurança? Adormeceu e sonhou que atravessava a fronteira, era o Uruguai. Sonhou que a garota lhe cofiava a barba sempre que terminavam de trepar, e depois, ainda nua, ia fumar na janela olhando o Prata. Acordou com a prostituta voltando com um porrete na mão e gritando impropérios sem nexos. Sangue escorrendo das têmporas e demônios no seu encalço. No dia seguinte ele atravessaria a rua. Uruguai, quem sabe. O baque veio quente e seco na nuca.
Escrito por aosuldelugarnenhum às 00h22
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Naqueles dias ele não pagaria uma bebida para ninguém, nem pararia para ouvir histórias mirabolantes de bêbados solitários. Estava muito longe de casa e os planos para voltar eram também muito distantes. Sentia uma velha solidão ao passar pelos corredores daquele hotel. Era um hotel térreo, meio labiríntico, talvez um pouco escuro demais, pensou. Fingia não ouvir as conversas dos outros quartos, ou de fato não ouvia, entorpecido numa distância da qual tentava esquecer as proximidades. Lembrava apenas das condições em que chegara ali num tempo já passado, já esquecido, eram como anos de isolamento. Pensava apenas que hotéis eram lugares de muita solidão. Do cara trabalhando na madrugada à mulher sozinha que vestia apenas roupas brancas e sempre dizia estar indo embora. Ela nunca ia. Essa cidade, ela meio que não existia em suas pequenas ruas. Todo mundo parecia ter necessidade de conversar, ninguém escutava nada, as respostas pareciam não ter lugar por ali. Cada vez que voltava ao hotel tinha a mesma sensação de que alguém finalmente o esperava. Não era verdade, não seria verdade. Naqueles dias muitas pessoas tentavam qualquer contato com ele, sem saber da impossibilidade que lhe movia naqueles pequenos instantes. Um dia, um pouco alterado, errou de quarto e uma luz forte ofuscou alguém que chorava. Sentiu as lágrimas, um forte cheiro de cigarro e muitas cores surgiram na sua retina. - De onde você vem? - Dali ó – e apontava um pequeno aparelho de som. - De onde? - Dali, merda, de dentro daquele solo de sax, que toca tão forte que me arranha os nervos. E apenas dói. Por isso abraço essa garrafa com uma força descontrolada. Conseguiu fechar a porta e voltar para rua. A garota que chorava lá dentro sabia porque chorava, chorava a necessidade e a impossibilidade de ser apenas uma nota musical num mundo que perdeu os ouvidos. Passou incólume pelas ruas vazias de uma noite já adiantada. A cidade dormia tranqüila e daquela forma era impossível que alguém pensasse em desespero. Mas naqueles dias havia duas pessoas, ao menos, que pensavam nisso. Elas viviam no mesmo hotel, estavam muito longe de casa, e de alguma forma, em algum lugar, perderam o mapa da volta. Pensou em abrir novamente aquele quarto e dizer que tudo ficaria bem. Dessa vez era só o escuro, já não havia ninguém por ali, apenas o insistente solo de sax. Voltou para o seu quarto e naquela noite não pôde ouvir mais nada. Sonhou com quartos de hotéis e suas histórias, e com a garota martelando sua cabeça. 

Escrito por aosuldelugarnenhum às 13h48
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